quinta-feira

Reinventando-me


Nos confrontos com meus eus ingeri os melhores venenos, mastiguei as piores ternuras. Com eles sucumbi. Por eles suplantei. Dei vida a três vidas. Nos encalços dos meus eus, intactas são as lembranças rabiscadas nas paredes amareladas. Sonhos desenhados sorrindo para mim. Vida voraz e inquieta, incerta e incompleta, mas fui feliz assim. Nos reencontros com os meus eus, a imagem de um velho relógio, quase sempre atrasado, soando reflexos estereotipados, impacientes e desnecessários. Tentando decifrar as badaladas daquele relógio corrompido, fiz canções inexatas, dancei indigências, agradeci por tudo, arranhei a tinta encruada da parede amarelada. Em silêncio, desatei razões, amarrei as emoções, costurei todos os detalhes. Acumulei, enfim, todos esses eus em mim e poupando-me a fadiga inútil, abri a janela e sorri. Olhei apenas os quadros tortos pendurados nas paredes amareladas, a mesma do relógio quase sempre atrasado e me atirei. E vendo aqueles eus esmagados, uns chorando e outros aliviados, me reinventei.(16/09/2010) Bianca Pimentel




sexta-feira

Transformação transgressora e revolucionária


O Punk emergiu em um contexto de descrença no futuro, alimentada pela estagnação econômica e pelas aspirações de jovens com sede de transformação. Indico esse O livro apresenta um relato fiel de como o Punk surgiu. O autor Legs McNel (que foi o criador da revista "Punk") e Gillian McCain registram uma longa entrevista com diversos personagens relevantes da cena de Nova Iorque nos anos 1960 e 1970. Com uma narrativa fluida, construída a partir de um coro de vozes, incluindo Iggy Pop, Patti Smith, Dee Dee e Joey Ramone e diversos frequentadores do CBG Nas várias entrevistas em Please, Kill-me (Mate-me, por favor) é possível reviver um pouco desta cena underground, que começou em Nova York revolucionando e influenciando o mundo. Mate-me, por favor, apresenta um ritmo narrativo e excitação típicos de um romance. Nas várias entrevistas com os personagens principais,
O Punk foi uma subcultura que influenciou uma geração e teve um grande impacto na moda, cultura e arte. Este livro é um documento completo do nascimento até a queda do movimento contracultural mais radical da história da música.

segunda-feira

Deliciosamente desnecessários

"Quero dizer que te amo só de amor.
Sem ideias, palavras, pensamentos.
Quero fazer que te amo só de amor.
Com sentimentos, sentidos, emoções.
Quero curtir que te amo só de amor.
Olho no olho, cara a cara, corpo a corpo.
Quero querer que te amo só de amor.
São sombras as palavras no papel.
Ser-não-ser refratados pelo amor no sexo
e nos sonhos dos amantes.
Fátuas sombras as palavras no papel.
Escrevo feito um poema de carne, sangue, nervos e sêmen.
Eu te sinto na pele, não no coração.
Quero do amor as tenras superfícies
onde a vida é lírica porque telúrica,
onde sou épico porque ébrio e lúbrico.

Quero genitais todas as nossas superfícies.
Não há limites para o prazer, mas virá sempre antes,
não depois da excitação.

Não há limites para se viver um grande amor.
Mas só te amo porque me dás o gozo
e não gozo mais porque eu te amo.

Porque eu te amo, tu não precisas de mim.
Porque tu me amas, eu não preciso de ti.
No amor, jamais nos deixamos de completar.
Somos, um para o outro, deliciosamente desnecessários.

O amor é tanto, não quanto.
Amar é enquanto, portanto. Ponto."
          Viva Roberto Freire! <3 p="">

terça-feira

VAGA, MULTIFORME E NÃO QUANTIFICÁVEL

Ela corre num labirinto e não sua. Acredita que vai chegar ao final com os pés calçados. É persistente, diferente das meninas que não têm defeitos e fazem o mundo parecer ainda mais vazio. Sobe muralhas de pedra onde nem as lagartixas chegam. Não deixa vestígios. Não quer ser compreendida. Só espera que ninguém a magoe nem antecipe o seu destino. Pouco importa se não irá a lugar algum, anda em círculos e não cansa. Perde a noção do tempo, sabe que está atrasada. É feliz por saber que tem tantos caminhos para descobrir e amigos para vida inteira. Acredita que pode guardar cada um deles na palma da sua mão. Precisa tomar decisões a cada instante e sorri dentes cansados. Sempre escolhe a saída errada. Vai tentar de novo, e de novo, até dar vontade de dormir. Dobra a esquina e continua passeando por universos de areia e pedra. Nenhum cheiro ou barulho, mas todas as possibilidades de futuro. Ela segue. Ela passa. Não tropeça, nem esbarra. Não olha para trás, nem para o céu. Tem os pés no chão e o olho apontando pra frente. No seu encalço, as sombras dos seus medos e pessoas de estimação. Então, pisa numa armadilha e cai num buraco. O percurso é tenso e inebriante até cair num tapete fofo de nuvens imaginadas. Passa em vão as mãos nos olhos e não enxerga nada. Está calma e determinada a tatear o vento e seguir. Sente o cheiro que habitava o seu travesseiro. De repente, um aconchego de braço forte a envolve impedindo a correria e o descontentamento. Sente seu corpo sendo abraçado. Não tem vontade de gritar. Parece ter sido muda a vida inteira. Agora está metade flutuando, metade sendo sugada. Por fora levita, do outro lado não tem mais a sensação de estar vazia. Voar é para poucos. Coloca os pés para fora do lençol e decide não sonhar mais esta noite.


sexta-feira

Bom dia.



Os pássaros cantam as cinco da manhã na minha janela e me sinto a única responsável por tudo na minha vida.