terça-feira

VAGA, MULTIFORME E NÃO QUANTIFICÁVEL

Ela corre num labirinto e não sua. Acredita que vai chegar ao final com os pés calçados. É persistente, diferente das meninas que não têm defeitos e fazem o mundo parecer ainda mais vazio. Sobe muralhas de pedra onde nem as lagartixas chegam. Não deixa vestígios. Não quer ser compreendida. Só espera que ninguém a magoe nem antecipe o seu destino. Pouco importa se não irá a lugar algum, anda em círculos e não cansa. Perde a noção do tempo, sabe que está atrasada. É feliz por saber que tem tantos caminhos para descobrir e amigos para vida inteira. Acredita que pode guardar cada um deles na palma da sua mão. Precisa tomar decisões a cada instante e sorri dentes cansados. Sempre escolhe a saída errada. Vai tentar de novo, e de novo, até dar vontade de dormir. Dobra a esquina e continua passeando por universos de areia e pedra. Nenhum cheiro ou barulho, mas todas as possibilidades de futuro. Ela segue. Ela passa. Não tropeça, nem esbarra. Não olha para trás, nem para o céu. Tem os pés no chão e o olho apontando pra frente. No seu encalço, as sombras dos seus medos e pessoas de estimação. Então, pisa numa armadilha e cai num buraco. O percurso é tenso e inebriante até cair num tapete fofo de nuvens imaginadas. Passa em vão as mãos nos olhos e não enxerga nada. Está calma e determinada a tatear o vento e seguir. Sente o cheiro que habitava o seu travesseiro. De repente, um aconchego de braço forte a envolve impedindo a correria e o descontentamento. Sente seu corpo sendo abraçado. Não tem vontade de gritar. Parece ter sido muda a vida inteira. Agora está metade flutuando, metade sendo sugada. Por fora levita, do outro lado não tem mais a sensação de estar vazia. Voar é para poucos. Coloca os pés para fora do lençol e decide não sonhar mais esta noite.