Nos confrontos com meus eus ingeri os melhores venenos, mastiguei as piores ternuras. Com eles sucumbi. Por eles suplantei. Dei vida a três vidas. Nos encalços dos meus eus, intactas são as lembranças rabiscadas nas paredes amareladas. Sonhos desenhados sorrindo para mim. Vida voraz e inquieta, incerta e incompleta, mas fui feliz assim. Nos reencontros com os meus eus, a imagem de um velho relógio, quase sempre atrasado, soando reflexos estereotipados, impacientes e desnecessários. Tentando decifrar as badaladas daquele relógio corrompido, fiz canções inexatas, dancei indigências, agradeci por tudo, arranhei a tinta encruada da parede amarelada. Em silêncio, desatei razões, amarrei as emoções, costurei todos os detalhes. Acumulei, enfim, todos esses eus em mim e poupando-me a fadiga inútil, abri a janela e sorri. Olhei apenas os quadros tortos pendurados nas paredes amareladas, a mesma do relógio quase sempre atrasado e me atirei. E vendo aqueles eus esmagados, uns chorando e outros aliviados, me reinventei.(16/09/2010) Bianca Pimentel